Domínio Público

O Pastor Amoroso

Poema de Fernando Pessoa sob o seu heterônimo Alberto Caeiro

Por Fernando Pessoa

Sobre este conteúdo

A Transformação pelo Amor Conhecido por sua busca pela objetividade pura e pela recusa em intelectualizar ou romantizar o mundo, Caeiro vê sua paz ser abalada pelo sentimento amoroso. O amor gera uma crise em sua forma de ver a realidade: ->A Natureza mediada: Antes, ele contemplava os rios e as flores de forma direta e isolada. Agora, a presença ou a ausência da mulher amada altera sua percepção. Ele passa a enxergar as coisas "melhor" porque está apaixonado. ->Novas sensações: Caeiro, que vivia apenas pelo olhar, passa a valorizar sentidos antes ignorados, como o perfume das flores. Ele escreve: "Nunca antes me interessou que uma flor tivesse cheiro. Agora sinto o perfume das flores como se visse uma coisa nova. " -> A perda do foco: O amor introduz o pensamento e a distração, elementos que Caeiro tanto combatia. Ao focar na pessoa amada, ele se desvia do presente. O Poema de Encerramento (Desilusão) A sequência culmina no famoso poema "O pastor amoroso perdeu o cajado", que marca o fim da ilusão amorosa e o retorno doloroso à realidade crua: "O pastor amoroso perdeu o cajado, E as ovelhas tresmalharam-se pela encosta, E, de tanto pensar, nem tocou a flauta que trouxe para tocar. (...)Quando se ergueu da encosta e da verdade falsa, viu tudo; Os grandes vales cheios dos mesmos verdes de sempre, As grandes montanhas longe, mais reais que qualquer sentimento..." Ao perder o cajado (seu símbolo de guia e controle) e deixar as ovelhas se espalharem, o pastor percebe que o amor era uma "verdade falsa" que o cegava. O fim do sentimento traz dor, mas devolve ao poeta a sua liberdade e o contato direto com o mundo real, que permanece indiferente aos dramas humanos.